O número do painel e o número do extrato são duas coisas diferentes, e a distância tem nome
O painel do seu sistema de cobrança mostra R$ 285.000,00 de MRR. O extrato do mesmo mês fecha com R$ 12.103,00. São R$ 272.897,00 de distância, e nenhum centavo disso é mistério. Sete linhas de custo variável e imposto levam R$ 100.397,00, nomeadas abaixo em seis valores, porque duas delas só podem ser medidas juntas. O custo fixo leva R$ 150.000,00 e a reposição da base perdida leva R$ 22.500,00. Cada linha tem valor, percentual e data.
A empresa deste texto: 500 clientes, R$ 285 mil de MRR, Simples Anexo III
Os números são de uma empresa construída para esta conta. Não existe base pública de ticket, de churn ou de mix de pagamento de SaaS brasileiro. O último levantamento amplo com amostra declarada é de maio de 2017 e nunca teve segunda edição. Quem publica “o benchmark do mercado brasileiro” está reproduzindo blog.
| Item | Valor | Origem |
|---|---|---|
| Clientes ativos | 500, sendo 350 no plano mensal e 150 no anual | Premissa BID |
| Preço mensal | R$ 600,00 | Premissa BID |
| Plano anual | R$ 6.000,00 à vista, 16,67% de desconto sobre 12 × R$ 600,00 | Premissa BID |
| MRR | R$ 285.000,00: R$ 210.000,00 dos mensais e R$ 75.000,00 dos anuais mensalizados | Derivado das premissas acima |
| Mix de cobrança | 75% em cartão, 25% em boleto ou Pix | Premissa BID, sem fonte brasileira |
| Taxa do cartão | 2,99% mais R$ 0,49 por transação, e a conta aplica os dois | Asaas, tabela pública, crédito à vista, consulta em 12/09/2026 |
| Tarifa de boleto ou Pix | R$ 3,49 por cobrança | Premissa BID, acima das tabelas consultadas |
| Recusa e inadimplência | 1,5% do valor cobrado | Premissa BID, sem fonte |
| Churn mensal | 2,5% da base | Premissa BID, sem fonte |
| CAC | R$ 1.800,00 por cliente | Premissa BID, sem fonte |
| Nuvem | 6% da receita | Premissa BID, calibrada em amostra americana |
| Suporte | 8% da receita | Premissa BID, calibrada em amostra americana |
| Custo fixo | R$ 150.000,00 por mês | Premissa BID |
| Regime | Simples Nacional, Anexo III, RBT12 de R$ 3.420.000,00, alíquota efetiva de 17,33% | LC 123/2006, Anexo III, e Solução de Consulta Cosit 271/2024 |
Por que nenhum fornecedor publica esta conta
O gateway publica o preço dele e para ali, porque a linha seguinte é o prazo de repasse, que também é dele. O ERP publica MRR e churn, porque o imposto sobre a receita bruta pertence ao contador. O contador fecha em competência, e a pergunta do dono é de caixa.

Linhas 1 e 2: o que nem chegou a ser cobrado com sucesso
Valor: R$ 4.275,00 no mês, 1,5% do que foi cobrado. É a soma do cartão recusado com o boleto não pago, e o painel de MRR não desconta nenhum dos dois. O MRR conta contrato ativo. O extrato conta liquidação. Esse 1,5% é premissa inteira da BID, sem fonte.
Recusa de cartão na assinatura: por que não existe número brasileiro
Não existe medição pública brasileira de taxa de recusa ou de aprovação em cobrança de assinatura. O Banco Central publica transação aprovada, nos documentos 6308 e 6334, sem dizer o que foi tentado. A Abecs não publica o indicador, e os percentuais de gateway circulam sem amostra e sem definição. A fonte estrangeira mais citada apresenta o número como taxa anual, e a imprensa o reproduz como mensal: a diferença passa de dez vezes.
O que a premissa de 1,5% diz, e como trocar pelo seu número
A premissa junta recusa e boleto não pago no mesmo 1,5%, porque separar os dois exigiria um dado que ninguém publicou no Brasil. Pegue o relatório do mês passado, compare o que foi tentado com o que liquidou, e troque o 1,5% pelo seu número. A 3%, a linha vira R$ 8.550,00; a 0,6%, cai para R$ 1.710,00. O restante da conta não se mexe, inclusive a linha 5.
Linhas 3 e 4: a taxa variável e a tarifa fixa, que cobram de jeitos diferentes
Do valor cobrado, 75% sai no cartão de crédito e 25% em boleto ou Pix. São R$ 213.750,00 no cartão, a 2,99% mais R$ 0,49 por transação: R$ 6.391,13 de percentual e R$ 133,28 de tarifa fixa em 272 transações, somando R$ 6.524,41. E são R$ 71.250,00 em boleto e Pix, em 91 cobranças a R$ 3,49 cada, o que dá R$ 317,59. Juntas, as duas linhas custam R$ 6.842,00, ou 2,40% do que foi cobrado.
O mesmo mix é aplicado duas vezes. Sobre o valor, ele dá os R$ 213.750,00 de cartão. Sobre a contagem, divide as 362,5 cobranças do mês em 272 e 91. Essas 362,5 são 350 planos mensais mais 12,5 anuais que renovam. Os critérios diferem de propósito: o ticket do contrato anual é doze vezes o mensal.
A parte percentual cresce com o valor da cobrança, e a tarifa fixa fica onde está. O empate entre os dois meios sai de uma divisão: R$ 3,00 de diferença entre as tarifas fixas, sobre 2,99%, dão R$ 100,33 de ticket. A comparação completa está em cartão, boleto ou Pix: o custo real de cobrar uma assinatura.
2,99% mais R$ 0,49 na tabela pública, contra 1,8841% de média do mercado
O MDR médio da captura recorrente no crédito, em uma parcela, foi de 1,8841% no primeiro trimestre de 2026. O número vem do recurso DESCONTODA da API Olinda do Banco Central, consulta de 12/09/2026, e cobre R$ 37,21 bilhões e 488.667.040 transações. É média ponderada por valor calculada pela BID.
A comparação só cabe na parte percentual: a estatística mede desconto percentual, sem tarifa por transação. A distância é de 1,6 vez. Sobre os mesmos R$ 213.750,00, a 1,8841% a linha seria de R$ 4.027,26, contra os R$ 6.391,13 de 2,99%. São R$ 2.363,87 por mês, R$ 28.366,44 por ano. Os R$ 133,28 de tarifa fixa continuam na conta nos dois cenários.
Por que a média do Banco Central não é o que você paga
Essa média cobre o mercado inteiro de captura recorrente, e o ticket médio dela é de R$ 76,15 por transação. Streaming, telefonia e clube de assinatura de consumo puxam a média para baixo e negociam em outra escala. Um SaaS B2B com 500 clientes não compra nessa tabela.
Entre o primeiro trimestre de 2023 e o primeiro de 2026, o MDR da captura recorrente subiu de 1,8474% para 1,8841%. No mesmo período, o crédito em geral caiu de 2,3343% para 2,1318%. A recorrência andou para o outro lado do crédito comum, e o meio de pagamento entra na conta como custo estrutural.
Uma ressalva de método: a leitura de que “Recorrente”, na classificação de forma de captura do Banco Central, corresponde à cobrança com cartão em arquivo é interpretação da BID. O número está confirmado na origem, e a nota metodológica com a definição literal não foi localizada.

Linha 5: o imposto sai sobre o que você faturou, não sobre o que entrou
Esta é a maior das sete linhas. R$ 49.380,00 no mês, 17,33% do faturamento, quase igual à soma das outras seis juntas, que dá R$ 51.017,00.
DAS de R$ 49.380,00 num mês em que entraram R$ 280.725,00
A empresa está no Simples Nacional, Anexo III, com RBT12 de R$ 3.420.000,00. A alíquota efetiva sai da fórmula da própria LC 123/2006: 21% de alíquota nominal sobre o RBT12, menos R$ 125.640,00 de parcela a deduzir, dividido pelo RBT12. São R$ 592.560,00 sobre R$ 3.420.000,00, o que dá 17,3263%. Aplicada aos R$ 285.000,00 de receita bruta auferida no mês, ela dá R$ 49.380,00 de DAS.
O enquadramento do licenciamento de software padronizado com cobrança mensal pelo uso, no Anexo III ou no V conforme o Fator R, está na Solução de Consulta Cosit 271/2024. Qual dos dois se aplica ao seu caso é pergunta para o contador.
Os R$ 740,70 de imposto sobre dinheiro que nunca chegou
Entraram R$ 280.725,00, e a base do imposto continua sendo R$ 285.000,00. Sobre o que entrou, o DAS seria de R$ 48.639,30. A diferença é de R$ 740,70 no mês e de R$ 8.888,40 no ano, pagos sobre cobrança que não liquidou.
A âncora normativa está no art. 2º da Resolução CGSN 140/2018, parágrafos 8º e 9º, com a expressão literal “ainda que no regime de caixa”. A receita bruta é auferida por competência, e a opção pelo caixa muda o momento de tributar sem mexer nessa definição. Essa redação vale até 31/12/2026: a Resolução CGSN nº 190, de 04/08/2026, extingue a opção pelo caixa a partir de 2027. Se a cobrança que não liquidou pode sair da base é assunto do contador. O efeito da mudança está em o fim do regime de caixa no Simples em 2027.
Dia 20 do mês seguinte, independente do D+32
O DAS vence no dia 20 do mês seguinte ao da competência, pelo art. 40 da Resolução CGSN 140/2018. O repasse do cartão cobrado nesse mesmo mês chega em D+32 dias corridos. Os dois prazos correm em calendários que ninguém sincronizou.
Se a cobrança rodou no dia 5, o cartão pousa por volta do dia 7 do mês seguinte, e o imposto vence treze dias depois. Se rodou no dia 25, o repasse chega perto do dia 27, sete dias depois do vencimento do imposto que ele gerou. Nos dois casos o DAS é sobre R$ 285.000,00. É por essa ordem de calendário que uma empresa lucrativa fica apertada no dia 19.

Linhas 6 e 7: o custo de servir, e o câmbio que você não controla
Nuvem a 6% da receita, integralmente em dólar
R$ 17.100,00 no mês, e o percentual é importado. O levantamento do SaaS Capital, “2026 Spending Benchmarks for Private B2B SaaS Companies”, ouviu mais de mil empresas em amostra predominantemente americana. Ele mede hospedagem em 5% e DevOps em 4% da ARR, e os 6% daqui são premissa da BID abaixo dessa soma. Pela média do PTAX dólar venda de 2026, de R$ 5,1469, são US$ 3.322,39 de fatura mensal.
Suporte a 8% da receita, acima da linha
R$ 22.800,00 no mês, contra 9% da ARR que o mesmo levantamento mede em suporte e customer success. Ele entra acima da linha porque acompanha o número de clientes servidos: dobrar a base dobra o volume de atendimento.
A folha do time de suporte está nesta linha, e por isso fica fora dos R$ 150.000,00 de custo fixo. Contar a mesma pessoa nos dois lugares é o erro mais comum desta conta. O método da BID separa a saída em variável, imposto e fixo, e o fixo nunca é rateado dentro do produto.
A variação de 11% do PTAX dentro do próprio ano
Entre 02/01/2026 e 11/09/2026, o PTAX dólar venda teve média de R$ 5,1469, mínimo de R$ 4,8973 e máximo de R$ 5,4372. São 174 cotações da API do Banco Central, em consulta de 12/09/2026. Do piso ao teto são 11,02%.
Aplicado aos mesmos US$ 3.322,39, a nuvem custaria R$ 16.270,74 no dia mais barato do ano e R$ 18.064,50 no mais caro. São R$ 1.793,76 por mês, sem que uma linha de log tenha mudado, e equivalem a 14,82% do resultado. Uma variação cambial que ninguém na empresa controla mexe em quase um sexto do que sobra.
R$ 210 mil atravessando o mês: a linha que custa calendário
Nenhum centavo desta linha se perde. Os R$ 210.543,75 de cartão a caminho voltam, menos a taxa da linha 3, e o que eles levam é o calendário. Dos R$ 285.000,00 cobrados, R$ 280.725,00 liquidaram, e 75% disso são cartão: 73,88% do MRR em trânsito, de forma permanente.
D+32 corridos, liquidando só em dia útil
A liquidação do crédito à vista, na tabela pública usada como referência, é de D+32 dias corridos a partir do pagamento, com crédito apenas em dia útil. É o que o Asaas publica, em consulta de 12/09/2026. A Vindi publica repasse em D+30 e em D+14, com taxa maior no prazo curto, em tabela cujos valores são máximos.
Esse prazo é preço comercial, e nenhuma norma o fixa. Trocar D+32 por D+14 antecipa R$ 210.543,75 em dezoito dias, e o que isso vale contra o que custa está em antecipação de recebíveis de assinatura: quando compensa.
Os 25% que entram em D+1
Os R$ 71.250,00 cobrados em boleto e Pix entram em D+1, o dia útil seguinte à compensação. Eles já estão na conta enquanto o repasse do cartão ainda está a caminho, e a fila do calendário é inteira do cartão.
O mês de dezembro que só vira caixa em janeiro
Em regime estável o D+32 é neutro: entra o repasse do mês anterior e sai o do atual. Ele deixa de ser neutro no primeiro mês de operação e em mês de crescimento forte, quando o repasse que chega vem de uma base menor. E na virada de dezembro para janeiro, quando décimo terceiro, férias e o DAS caem sobre um caixa que ainda está esperando. O saldo de plano anual já recebido e não entregue agrava a virada. São R$ 412.500,00, ou 1,45 vez o MRR, com peça própria em receita diferida no plano anual de SaaS.
Fechando a conta: margem de contribuição, custo fixo e o CAC que só repõe
| Linha | O que é | Valor (R$) | % do MRR | Quando acontece | Saldo (R$) |
|---|---|---|---|---|---|
| Partida | MRR do mês | 285.000,00 | 100,00% | dia da cobrança | 285.000,00 |
| 1 e 2 | Recusa de cartão e boleto não pago, 1,5% | -4.275,00 | 1,50% | nunca entra | 280.725,00 |
| 3 | Cartão: 2,99% sobre R$ 213.750,00, mais R$ 0,49 em 272 transações | -6.524,41 | 2,29% | descontado no repasse | 274.200,59 |
| 4 | Boleto e Pix: 91 cobranças × R$ 3,49 | -317,59 | 0,11% | descontado na liquidação | 273.883,00 |
| 5 | DAS do Simples, 17,3263% sobre R$ 285.000,00 | -49.380,00 | 17,33% | dia 20 do mês seguinte | 224.503,00 |
| 6 | Nuvem, 6% da receita, em dólar | -17.100,00 | 6,00% | fatura do mês | 207.403,00 |
| 7 | Suporte, 8% da receita | -22.800,00 | 8,00% | folha do mês | 184.603,00 |
| Soma | Custo variável e imposto | -100.397,00 | 35,23% | ||
| Chegada | Margem de contribuição | 184.603,00 | 64,77% | 184.603,00 |
Os R$ 184.603,00 de margem e os R$ 150.000,00 de custo fixo
A margem de contribuição é de R$ 184.603,00, ou 64,77% do faturamento. É com ela que a empresa paga o custo fixo, que fica abaixo da linha e nunca é rateado dentro do produto. Ratear faz o custo unitário subir justamente quando o volume cai. Depois dos R$ 150.000,00 restam R$ 34.603,00, 12,14% do faturamento.
Os R$ 22.500,00 por mês que você gasta para não encolher
Com churn de 2,5% ao mês, saem 12,5 clientes de uma base de 500. A R$ 1.800,00 de CAC, repor esses 12,5 custa R$ 22.500,00, e a empresa termina o mês com os mesmos 500 clientes e o mesmo MRR. Esses R$ 22.500,00 consomem 65,02% do que tinha sobrado. Quanto vender só para ficar parado tem conta própria em churn mensal de SaaS: quanto vender para ficar parado.
O resultado do mês, em percentual do faturamento
| Etapa | Valor (R$) | % do MRR |
|---|---|---|
| Margem de contribuição | 184.603,00 | 64,77% |
| Custo fixo do mês | -150.000,00 | 52,63% |
| Resultado antes da reposição | 34.603,00 | 12,14% |
| CAC de reposição, 12,5 × R$ 1.800,00 | -22.500,00 | 7,89% |
| Resultado do mês | 12.103,00 | 4,25% |
Restam R$ 12.103,00, ou 4,25% do faturamento. São 500 clientes pagantes, 64,77% de margem de contribuição e pouco mais de doze mil reais na conta no fim do mês.
Essa conta descreve uma empresa operando perto do breakeven. É onde o levantamento do SaaS Capital encontra 83% das empresas bootstrapped da amostra, lucrativas ou a no máximo dois pontos do empate. Os 83% são da amostra americana, e é assim que precisam ser lidos.
A sua versão desta conta
A BID refaz essas sete linhas com o seu extrato bancário e o seu relatório de gateway, lançamento a lançamento. A saída é a margem de contribuição real por linha de receita, em DRE de caixa de doze meses, com plano de ação priorizado em reais. O material de entrada é o extrato e o relatório de cobrança do último trimestre fechado.







