Quanto o dono de clínica pode retirar por mês: o cálculo do teto de retirada em 7 passos, com o recebível de convênio dentro da conta

Imagem de destaque: quanto o dono de clínica pode retirar no mês, com R$ 18.707,39 de espaço para a remuneração do sócio contra R$ 21.600,00 praticados.
Cliente – Calculadora – Topo

A resposta direta: a fórmula do teto de retirada do mês

O valor que você pode retirar neste mês é um saldo, calculado data a data. Ele muda todo mês porque as datas em que o dinheiro entra mudam. Com mix de particular e convênio, a mesma produção vira caixa em três momentos distintos. No dia seguinte ao atendimento, nos 40% do particular pagos à vista. Em trinta dias, nos 60% que vêm em cartão, o que dá prazo médio de 18,4 dias no particular. Ou depois do ciclo inteiro de uma operadora.

A fórmula completa, com cada termo explicado

Entradas: saldo livre em conta + recebimentos com data de crédito confirmada no período.

Obrigações: folha e encargos + repasse + impostos + dívida e investimento já contratado.

Reservas: provisão do mês para o que vence uma vez por ano + recomposição da reserva de ciclo + serviço já recebido e ainda não entregue.

Teto de retirada do mês = entradas – obrigações – reservas.

O termo que você não souber onde buscar é o primeiro buraco a fechar.

  • Saldo livre. Extrato das contas de movimento, sem o saldo da reserva de ciclo.
  • Recebimentos com data confirmada. Previsão de particular à vista, agenda da adquirente de cartão e demonstrativo de cada operadora. Valor sem data de crédito fica fora.
  • Folha e encargos. Folha fechada do mês, com INSS, FGTS e benefícios, na data de cada vencimento.
  • Repasse. Produção por profissional aplicada à regra de cada contrato, na data pactuada.
  • Impostos. Guias do contador, separando o que vence dentro do mês do que vence fora.
  • Dívida e investimento contratado. Empréstimo, consórcio, financiamento de equipamento e pedido assinado com desembolso agendado.
  • Provisão anual. Décimo terceiro, férias com o terço, rescisões decididas, seguro, licença sanitária, anuidades e software anual.
  • Reserva de ciclo. Diferença entre a reserva que o ciclo exige e a que já está de pé em conta com liquidez diária.
  • Serviço recebido e não entregue. Pacote de sessões pago à vista cujas sessões ainda vão ocorrer, com custo que ainda vai acontecer.

A resposta da clínica ilustrativa desta série

As seis páginas desta série usam a mesma clínica ilustrativa, com os mesmos números. Ela fatura R$ 308.780,00 no mês e fecha com resultado de R$ 2.892,61 negativos. Com resultado negativo, a conta do teto tem uma resposta curta.

O teto de retirada deste mês é o pró-labore de R$ 18.000,00, que já saiu dentro do custo fixo. A distribuição de lucro do mês é R$ 0,00.

Distribuir lucro exige lucro apurado. Este mês não apurou lucro. Nenhuma regra de bolso muda isso, e nenhum percentual do faturamento produz um número melhor.

O bloco dos sete passos refaz a conta inteira sobre esse mês. O passo 7 mostra que o mês abriu espaço de R$ 18.707,39 para a remuneração do sócio, e que o pró-labore praticado custou R$ 21.600,00. O bloco final mostra o que precisa mudar para existir distribuição, em horas ocupadas.

Por que o teto muda todo mês em clínica com mix de convênio

Numa operação só de particular à vista, produção e caixa acontecem quase no mesmo dia. Com convênio, a clínica entrega o serviço, paga profissional, sala e folha, e recebe depois.

Três coisas mexem no teto sem que a agenda mude. A data de corte decide se a produção do fim do mês entra neste ciclo ou no próximo. A glosa reduz o crédito depois de o custo ter ocorrido. E quando uma única fonte pagadora responde por metade do que entra, o atraso dela vira evento de sobrevivência.

Os 5 números que você precisa ter em mãos

Os cinco números de partida do cálculo do teto, com a origem de cada um e o que existe na clínica ilustrativa desta série. Valores ilustrativos, construídos para esta série.
NúmeroOnde o dado moraNa clínica ilustrativa desta série
Saldo livre em conta hojeExtrato das contas de movimento, sem a reservaSem valor nesta série. A clínica ilustrativa fixa o mês fechado, sem saldo bancário
Recebível por data de créditoDemonstrativo de cada operadora e agenda da adquirenteSem valor nesta série. O mês tem R$ 86.580,00 de convênio e R$ 222.200,00 de particular, sem datas
Folha, encargos e repasse do períodoFolha fechada e produção por profissionalR$ 167.746,88
Impostos com vencimento no períodoGuias emitidas pelo contadorR$ 52.129,13
Dias até o próximo crédito relevanteCalendário contratado com cada operadoraSem valor nesta série. Sai do contrato de cada operadora

Os R$ 167.746,88 são a folha das carteiras assinadas somada aos encargos e ao repasse, R$ 28.400,00 mais R$ 8.804,00 mais R$ 130.542,88. Três dos cinco números não existem na clínica ilustrativa, porque ela fixa um mês fechado, sem datas de crédito. Eles saem do seu extrato e dos seus contratos.

Quem já mantém DRE de caixa tem a maior parte do trabalho pronta. Quem ainda não mantém precisa entender antes a diferença entre a DRE e o fluxo de caixa. E quem mantém a DRE de caixa e mesmo assim não enxerga para onde o dinheiro foi tem o diagnóstico das dez linhas em clínica faturando bem e sem lucro.

As três retiradas que o dono soma num número só

Quase toda clínica calcula a retirada olhando para o pró-labore, e às vezes soma a distribuição. A terceira quase nunca é contada, porque fica escondida dentro do custo fixo.

Pró-labore: quando sai, sobre o que incide e por que ele é custo fixo

O pró-labore remunera o trabalho do sócio na própria empresa. Tem valor definido pelos sócios e sai independentemente do resultado. Isso faz dele custo fixo, e ele precisa entrar no ponto de equilíbrio junto com aluguel e folha administrativa.

Na clínica ilustrativa desta série o pró-labore é de R$ 18.000,00 no mês. A contribuição patronal sobre ele, de R$ 3.600,00, ocupa linha própria dentro do mesmo custo fixo. As duas somam R$ 21.600,00 de custo fixo mensal criado pela remuneração do sócio.

A Lei 8.212/1991 enquadra o sócio que presta serviço à própria empresa como contribuinte individual, no artigo 12, inciso V, alínea “f”. O artigo 28 define a base de incidência. A empresa retém no pagamento e recolhe depois.

O pró-labore carrega duas contribuições distintas, e confundi-las derruba o cálculo do teto. A primeira sai do bolso do sócio: 11% de desconto do contribuinte individual, sobre a base limitada ao teto do salário de contribuição. Essa alíquota não muda com o anexo.

A segunda sai do caixa da clínica: a contribuição patronal de 20%, do artigo 22, inciso III, da mesma lei. Ela fica dentro da guia única em alguns anexos do Simples Nacional. Em outros casos é recolhida à parte, entre eles o Lucro Presumido, que é o regime da clínica desta série. Qual é o seu caso, o contador confirma.

Distribuição de lucros: o que precisa existir antes de distribuir

A distribuição depende de duas condições simultâneas. Precisa existir lucro apurado, condição contábil. E esse lucro precisa ter virado dinheiro em conta, condição financeira. É comum a primeira existir sem a segunda.

Na clínica ilustrativa desta série a primeira condição já falha. O mês fechou com R$ 2.892,61 negativos, e a distribuição do mês é R$ 0,00.

O artigo 10 da Lei 9.249/1995 é a base da isenção do imposto de renda sobre lucro distribuído. Desde 1º de janeiro de 2026, a Lei 15.270/2025 criou uma retenção de 10% na fonte. Ela alcança o lucro pago por uma mesma pessoa jurídica a uma mesma pessoa física residente, quando o total pago no mês passa de R$ 50.000. A retenção incide sobre o valor total pago naquele mês, sem dedução. Ela não alcança apenas a parcela que excede o limite. Quem decide a aplicação ao seu caso é o contador.

Isso cria um degrau, e o degrau tem efeito de caixa. Distribuir R$ 50.000 num mês não gera retenção. Distribuir R$ 50.001 no mesmo mês gera R$ 5.000,10, porque os 10% alcançam o valor inteiro. Um real a mais custa mais de cinco mil. Quem decide a retirada mês a mês precisa saber onde está esse degrau antes de assinar a transferência.

A terceira retirada: o cartão da clínica pagando despesa pessoal

São despesas pessoais que circulam pela conta e pelo cartão da pessoa jurídica. Na classificação do extrato, elas ficam espalhadas por material de consumo, despesa administrativa e marketing.

Para achá-las, pegue extrato e fatura dos últimos três meses. Marque cada lançamento que você não justificaria como necessário ao atendimento. Some o que sobrou marcado.

Lançamentos pessoais que costumam circular pela conta da clínica e a rubrica que costuma recebê-los. Sem valores, porque o custo fixo da clínica ilustrativa desta série não tem linha de despesa pessoal.
LançamentoOnde costuma estar classificado
Combustível e pedágio do carro da famíliaDespesa com veículo
Linhas de celular de familiaresTelefonia
Assinaturas de streaming e aplicativosSoftware e sistemas
SupermercadoMaterial de consumo
Mensalidade de curso de filhoTreinamento
Parcela de viagemDespesa de viagem
Academia e plano pessoalBenefícios

O custo fixo da clínica ilustrativa desta série tem onze linhas, todas classificadas, e nenhuma delas é despesa pessoal. A terceira retirada dela é R$ 0,00. No seu extrato ela só é zero depois de você conferir.

Achar essas linhas depende de classificar o extrato por CPF e por CNPJ. O nome do favorecido duplica a mesma pessoa entre física e jurídica, e espalha a terceira retirada por várias rubricas. O método de classificação, com a linha “a confirmar” para pagamento recorrente sem vínculo identificado, está em clínica faturando bem e sem lucro.

Quadro comparativo das três, com efeito no caixa e no resultado

Comparação das três formas de retirada do sócio de clínica em sete critérios de decisão.
CritérioPró-laboreDistribuição de lucrosDespesa pessoal pela conta da clínica
NaturezaRemuneração do trabalho do sócioRemuneração do capital investidoRetirada informal, sem rubrica própria
PeriodicidadeMensal e fixaLivre, conforme apuraçãoDiária e difusa
Onde aparece na DRE de caixaCusto fixo, acima do resultadoAbaixo da linha, depois do resultadoEspalhada em rubricas de custo
Efeito no caixaSai em duas datas: líquido no pagamento e retenções e patronal no recolhimentoSai integral na data do pagamentoSai pulverizada ao longo do mês
O que incide sobre elaDesconto de 11% do contribuinte individual, imposto de renda na fonte e, quando devida fora da guia única, contribuição patronal de 20% (Lei 8.212/1991, art. 22, III)Isenção do art. 10 da Lei 9.249/1995, com retenção de 10% da Lei 15.270/2025 sobre o total pago no mês quando ele passa de R$ 50.000Nada é apurado, porque a saída não é reconhecida como retirada
O que acontece quando estouraSobe o ponto de equilíbrioConsome o caixa que sustenta o ciclo do recebívelInfla o custo aparente e distorce a margem por serviço
Quem decide o valorSócios, dentro do teto de caixaSócios, limitado ao lucro apurado e ao caixaNinguém decide, e por isso ela cresce
Valor no mês da clínica ilustrativaR$ 18.000,00, mais R$ 3.600,00 de patronalR$ 0,00R$ 0,00

Some as três no mês da clínica ilustrativa desta série. São R$ 18.000,00 de pró-labore, R$ 0,00 de distribuição e R$ 0,00 de despesa pessoal. Some ainda a patronal de R$ 3.600,00, que sai do caixa por causa do sócio sem chegar ao bolso de ninguém. O mês custou R$ 21.600,00 de remuneração de sócio.

O mesmo mês abriu espaço de R$ 18.707,39 para essa remuneração. A conta está no passo 7. A diferença entre os dois números é R$ 2.892,61, que é exatamente o resultado negativo do mês.

Por que o lucro do mês ainda não está na conta: o recebível de convênio

Da guia enviada ao dinheiro na conta

Entre o atendimento e o crédito passam cerca de 58 dias, pelo ciclo detalhado em dinheiro parado no convênio. Aquela página tem a linha do tempo dos oito marcos, o que a norma exige do contrato e o custo desse prazo.

Para o cálculo do teto interessa o que o ciclo produz. O valor de convênio só entra na conta quando existe demonstrativo com data de crédito. O custo daquele atendimento saiu do caixa semanas antes.

Quanto do resultado do mês ainda está preso em recebível

Resultado que virou caixa = resultado apurado no mês – produção de convênio ainda não creditada + créditos recebidos neste mês de meses anteriores.

Um mês fecha com resultado alto e caixa apertado quando a produção de convênio cresceu. Fecha com resultado modesto e caixa folgado quando cai o crédito de dois ciclos represados. As duas demonstrações respondem perguntas distintas, como está em qual a diferença entre lucro e fluxo de caixa.

Na clínica ilustrativa desta série, o convênio do mês é de R$ 86.580,00 brutos, 28,04% do faturamento. Descontada a glosa final de R$ 3.463,20, sobram R$ 83.116,80 a creditar. A série não fixa as datas em que esse valor cai.

O aging por operadora e por data de crédito

Critério de entrada de cada situação do aging no cálculo do teto de retirada.
Situação do valorEntra no tetoMotivo
Demonstrativo conferido, com data de crédito dentro do períodoSimExiste documento com valor e data
Lote em fechamento, ainda sem demonstrativoNãoO valor conferido ainda não existe
Glosado, com recurso aberto dentro do prazoNãoValor sem data de crédito fica fora dos dois lados
Glosa final, com recurso vencido ou indeferidoNuncaDeixou de ser recebível
Parcela de cartão com agenda confirmada pela adquirenteSimAgenda confirmada, sem glosa
Particular à vista já recebidoSimJá está dentro do saldo da linha 1 do quadro

Monte a sua tabela com cinco colunas: fonte pagadora, competência, valor em aberto, data prevista de crédito e situação. Use a coluna de situação com os mesmos seis rótulos acima. A agenda da adquirente é confirmada e não sofre glosa, o que a torna uma previsão bem mais firme que a de operadora.

Os 7 passos do cálculo, com exemplo fechado

Os sete passos atravessam a clínica ilustrativa desta série, a mesma das outras cinco páginas. Todos os valores são construídos para a série e nenhum deles é recalculado aqui.

Premissas da clínica ilustrativa desta série. Valores ilustrativos, construídos para a série.
PremissaValor adotado
Estrutura4 salas, 12 horas por dia, 24 dias por mês
Horas de sala abertas288 por sala, 1.152 no mês
Horas ocupadas720, ocupação de 62,50%
ModalidadesConsulta médica, fisioterapia, psicologia e odontologia, em 1.600 atendimentos
Receita bruta do mêsR$ 308.780,00
Mix de fontes pagadorasR$ 86.580,00 de convênio (28,04%) e R$ 222.200,00 de particular (71,96%)
Regime tributárioLucro Presumido, sem equiparação hospitalar, presunção de 32%
Premissa de glosa4% sobre o faturamento de convênio
Premissa de inadimplência1,5% sobre o faturamento particular
Premissa de taxa de meio de pagamento2,2% sobre o faturamento particular
Remuneração do sócioPró-labore de R$ 18.000,00 e patronal de R$ 3.600,00, ambos dentro do custo fixo
Dívida e investimento contratadoSem valor nesta série
Venda de pacote no mêsR$ 0,00
Cascata do mês da clínica: receita bruta de R$ 308.780,00, receita líquida de R$ 244.966,27, margem de contribuição de R$ 102.543,39 e resultado de -R$ 2.892,61.
Da receita bruta ao resultado do mês na clínica

Passo 1: separar saldo em conta de resultado do mês

Saldo em conta é estoque na data de hoje. Resultado do mês é fluxo de trinta dias. Somar os dois é o erro mais comum da primeira rodada.

A clínica ilustrativa desta série fixa o mês fechado e não publica saldo bancário. Os sete passos abaixo atravessam o mês dela em regime de caixa. O seu saldo de abertura entra pela linha 1 do quadro, mais adiante.

Passo 2: apurar o mês em regime de caixa

A tabela abaixo mistura a produção do mês com o desembolso do mês, e por isso carrega três subtotais separados: a receita líquida, a margem de contribuição e o resultado. Entra o que tem data de crédito confirmada em documento. Sai o que tem data de vencimento contratada. O que não tem data em documento fica fora dos dois lados.

Da receita bruta ao resultado do mês na clínica ilustrativa desta série. Valores ilustrativos, construídos para a série.
LinhaValor
Receita brutaR$ 308.780,00
Glosa final, 4% sobre o convênioR$ 3.463,20
Inadimplência, 1,5% sobre o particularR$ 3.333,00
Taxa de meio de pagamento, 2,2% sobre o particularR$ 4.888,40
Imposto sobre a receita, alíquota efetiva de 16,88%R$ 52.129,13
= Receita líquidaR$ 244.966,27
Repasse aos profissionaisR$ 130.542,88
Material e laboratórioR$ 11.880,00
= Margem de contribuição, 33,21% da receita brutaR$ 102.543,39
Custo fixo, abaixo da linhaR$ 105.436,00
= Resultado do mêsR$ 2.892,61 negativos

O imposto do mês abre em seis guias. São IRPJ de R$ 14.821,44, adicional de IRPJ de R$ 7.880,96 e CSLL de R$ 8.892,86. São ainda PIS de R$ 2.007,07, COFINS de R$ 9.263,40 e ISS de R$ 9.263,40. A soma das seis é os R$ 52.129,13 da tabela.

Para o cálculo do teto, o custo fixo precisa ser aberto em quatro blocos. O bloco da remuneração do sócio sai do quadro e vai para baixo dele, porque é a própria retirada que estamos medindo.

Como os R$ 105.436,00 de custo fixo do mês se dividem para o cálculo do teto. Valores ilustrativos, construídos para esta série.
BlocoValor no mês
Folha das carteiras assinadas e encargos sobre elaR$ 37.204,00
Provisão de 13º e férias com encargosR$ 4.732,00
Demais custos fixos, fora a remuneração do sócioR$ 41.900,00
Pró-labore e contribuição patronal sobre eleR$ 21.600,00
Total do custo fixo do mêsR$ 105.436,00

A conferência do mês fechado é outra tarefa e acontece depois. Quando o mês fecha, a DRE de caixa é reconstruída lançamento a lançamento do extrato. Ela fecha com uma identidade que precisa bater na casa do centavo. Saldo inicial mais movimento do período é igual ao saldo final do extrato.

Passo 3: mapear o recebível por data de crédito

Este passo não muda o saldo. Ele define o passo 4. A pergunta dele é quantos dias separam o último crédito relevante de operadora do próximo.

A clínica ilustrativa desta série não traz esse intervalo. Ela fixa o mês fechado, com R$ 83.116,80 de convênio a creditar depois da glosa final, sem as datas. No seu caso o intervalo sai do calendário de cada contrato, e a tabela de critérios do bloco anterior diz o que entra e o que fica fora.

Passo 4: travar a reserva de ciclo e o serviço de pacote a entregar

Duas travas saem do teto neste passo. A primeira cobre os dias sem crédito. A segunda cobre o dinheiro que entrou de pacote e ainda tem serviço para entregar.

  1. Custo operacional diário. Na clínica desta série, custo fixo mais repasse mais material somam R$ 247.858,88. Divididos por 30 dias corridos, dão R$ 8.261,96 por dia.
  2. Dias até o próximo crédito relevante. Multiplique o custo diário por esse número de dias. A clínica desta série não tem esse intervalo fixado, e por isso a reserva exigida dela não existe como número.
  3. Margem para glosa acima do esperado. A premissa de 4% sobre o convênio já foi descontada no passo 2, em R$ 3.463,20. A margem da reserva cobre a glosa que passar disso, e o tamanho dela sai da sua própria série de demonstrativos. A estatística da ANS, a dispersão entre operadoras e o motivo pelo qual ela serve como régua de comparação estão em convênio ou particular.

Dois limites dessa conta precisam estar escritos. A reserva cobre folha, repasse e custo fixo dos dias sem crédito. Guia de imposto com vencimento dentro da janela entra à parte, somada à reserva. E o multiplicador é de dias corridos, porque o custo fixo corre em dias corridos. Quem preferir contar em dias úteis precisa dividir o custo pelo mesmo denominador que vai multiplicar.

A reserva de ciclo é um estoque que se constitui uma vez e se mantém. Do teto sai apenas a diferença entre a exigida e a que já existe. No primeiro mês do cálculo, a reserva inteira entra de uma vez e o teto costuma dar negativo. Isso informa o tamanho do descasamento.

A segunda trava é o serviço de pacote ainda não entregue. Na clínica desta série ela é R$ 0,00, porque o mês não teve venda de pacote. A receita bruta dela é a soma de 1.600 atendimentos, atendimento a atendimento. A mecânica do pacote está no bloco próprio, mais adiante.

As duas travas deste passo somam R$ 0,00 no mês da clínica ilustrativa. No seu caso elas raramente somam zero.

Passo 5: provisionar 13º, férias, rescisão e o que vence uma vez por ano

A memória de cálculo vem das normas, sem percentual pronto. A gratificação natalina é um doze avos da remuneração por mês trabalhado, pela Lei 4.090/1962. As férias são trinta dias após cada período aquisitivo de doze meses, pela CLT, com o terço da Constituição, artigo 7º, inciso XVII. O FGTS de 8% incide sobre as duas verbas, pela Lei 8.036/1990, artigo 15.

Na clínica ilustrativa desta série essa provisão já tem linha própria dentro do custo fixo, em R$ 4.732,00. Ela já foi subtraída no passo 2, junto com o restante do custo fixo. Somá-la de novo aqui tiraria duas vezes o mesmo dinheiro do teto.

Rescisão entra quando existe decisão tomada. Os encargos que incidem sobre décimo terceiro e férias variam com o regime tributário, e a lista exata é do contador.

Este passo subtrai R$ 0,00 adicionais no mês da clínica ilustrativa.

Passo 6: abater dívida e investimento já contratado

Este passo trata do que está assinado e desembolsa antes do próximo crédito relevante. Empréstimo, consórcio, financiamento de equipamento e pedido assinado entram aqui. Compromisso assinado ocupa caixa antes de aparecer no extrato.

A clínica ilustrativa desta série não tem parcela de dívida nem investimento contratado. O custo fixo dela tem onze linhas e nenhuma é financeira. Esse campo não existe na série, e no seu caso ele sai dos contratos.

Quando o extrato traz a parcela cheia de um empréstimo e o contrato não está à mão, principal e juro não se separam. Nesse caso a parcela inteira fica abaixo da linha, e o texto declara isso. O resultado operacional deixa de ser penalizado pela amortização e de ser creditado pelo juro embutido nela.

Este passo subtrai R$ 0,00 no mês da clínica ilustrativa.

Passo 7: dividir o que sobrou entre pró-labore e distribuição

Chegamos ao número. A margem de contribuição do mês é R$ 102.543,39. O custo fixo sem a remuneração do sócio é R$ 83.836,00. A diferença entre os dois é o espaço do mês para a remuneração do sócio.

Espaço do mês: R$ 102.543,39 – R$ 83.836,00 = R$ 18.707,39. Esse valor precisa cobrir o pró-labore e a contribuição patronal sobre ele.

O pró-labore praticado é de R$ 18.000,00, e com a patronal de 20% ele custa R$ 21.600,00. O espaço do mês foi de R$ 18.707,39. A diferença é R$ 2.892,61, que é o resultado negativo do mês.

Com a patronal de 20% por cima, o pró-labore que caberia nesse espaço seria de R$ 15.589,49. A conta é R$ 18.707,39 dividido por 1,20. A tabela compara as duas colunas.

O pró-labore praticado e o pró-labore que caberia no espaço do mês, na clínica ilustrativa desta série, no Lucro Presumido e com a patronal recolhida à parte. Valores ilustrativos, com as tabelas de 2026.
LinhaPraticado: R$ 18.000,00Que caberia no mês: R$ 15.589,49
Pró-labore brutoR$ 18.000,00R$ 15.589,49
Desconto do contribuinte individual, 11% sobre base limitada a R$ 8.475,55R$ 932,31R$ 932,31
Base do imposto de renda na fonteR$ 17.067,69R$ 14.657,18
Imposto de renda retido na fonteR$ 3.784,88R$ 3.121,99
Pró-labore líquido no bolso do sócioR$ 13.282,81R$ 11.535,19
Retenções a recolher no mês seguinteR$ 4.717,19R$ 4.054,30
Contribuição patronal de 20%R$ 3.600,00R$ 3.117,90
Custo total para a clínicaR$ 21.600,00R$ 18.707,39
Distribuição de lucro que cabe no mêsR$ 0,00R$ 0,00

As simulações usam as tabelas de 2026. O teto do salário de contribuição é R$ 8.475,55, pela Portaria Interministerial MPS/MF nº 13, de 9 de janeiro de 2026. A última faixa da tabela mensal do imposto de renda na fonte tem 27,5% e parcela a deduzir de R$ 908,73, pela Receita Federal, tabelas de 2026, consulta em 12/09/2026. O desconto de 11% sobre a base limitada ao teto é premissa deste texto, sujeita à verificação do contador.

A diferença de custo entre as duas colunas é R$ 2.892,61. Ela vem de R$ 2.410,51 de pró-labore bruto e de R$ 482,10 de patronal. No bolso do sócio a diferença é menor, R$ 1.747,62, porque parte do corte seria devolvida em retenção que deixaria de existir.

O desconto do contribuinte individual é idêntico nas duas colunas, porque as duas bases já estão acima do teto do salário de contribuição. Nos anexos III e V do Simples Nacional a patronal fica dentro da guia única. Nesse caso o espaço do mês seria ocupado só pelo pró-labore bruto. Confirmar qual cenário vale para a sua clínica é tarefa do contador.

A resposta do mês, então, é esta. O teto de retirada é o pró-labore de R$ 18.000,00 que já saiu dentro do custo fixo. A distribuição é R$ 0,00, e a Lei 15.270/2025 nem chega a ser consultada, porque não há valor a distribuir.

O que precisa mudar para existir distribuição

O ponto de equilíbrio da clínica desta série é 740,31 horas ocupadas, ocupação de 64,26% sobre as 1.152 horas de sala abertas. O mês teve 720 horas ocupadas. Faltam 20,31 horas ocupadas para o mês empatar.

Em minutos, isso é pouco. São 20,31 horas multiplicadas por 60 e divididas pelos 24 dias úteis do mês. Dá 51 minutos por dia útil, somando as quatro salas.

Cliente – Calculadora – Meio

A margem por hora ocupada do mix atual é R$ 142,42. Multiplicada pelas 20,31 horas, ela dá R$ 2.892,55, que é o resultado negativo do mês a seis centavos de arredondamento. Qual hora você preenche muda o tamanho do esforço.

Quantas horas ocupadas a mais cobrem sozinhas os R$ 2.892,61 do mês, por modalidade, na clínica ilustrativa desta série. Valores ilustrativos, construídos para a série.
ModalidadeMargem por hora de salaHoras a mais para cobrir o resultado
Consulta médicaR$ 230,7912,53
OdontologiaR$ 156,9518,43
FisioterapiaR$ 95,5230,28
PsicologiaR$ 57,6150,21
No mix atual do mêsR$ 142,4220,31

Nas quatro modalidades o custo fixo continua o mesmo, porque a sala já está aberta e paga. As 432 horas de sala abertas e vazias do mês são o espaço aritmético dessa conta. Preencher a hora vazia não exige custo fixo novo, e é isso que torna essa alavanca diferente de todas as outras.

Empatar ainda não gera distribuição. No ponto de equilíbrio o resultado é R$ 0,00, e o que existe é o pró-labore de R$ 18.000,00 pago inteiro dentro do custo fixo. A distribuição começa a existir só depois das 740,31 horas.

Cada hora ocupada além do equilíbrio soma R$ 142,42 ao resultado, no mix atual. Para a distribuição do mês igualar o pró-labore, seriam necessárias mais 126,39 horas ocupadas. A conta é R$ 18.000,00 dividido por R$ 142,42, e o produto de volta é R$ 18.000,46.

Isso põe a clínica em 866,70 horas ocupadas, ocupação de 75,23%. A tabela dos três níveis de ocupação, no último bloco, mostra os três pontos lado a lado. Antes dela, quatro travas precisam estar de pé.

A divisão entre pró-labore e distribuição mexe ainda em quatro coisas fora do caixa do mês. O Fator R e o anexo do Simples Nacional, tratados em custo da hora da clínica. A base previdenciária do sócio. A capacidade de comprovar renda. E a exigência de escrituração para distribuir acima da base presumida. As quatro estão nas perguntas do penúltimo bloco.

As 4 travas que ficam de pé antes de qualquer retirada

Régua de ocupação sobre 1.152 horas de sala: 720 horas dão -R$ 2.892,61; 740,31 horas e 64,26% empatam; 866,70 horas e 75,23% dão R$ 18.000,46.
Quantas horas ocupadas faltam para existir distribuição
As quatro travas do mês da clínica ilustrativa, com data exigida e efeito do descumprimento. Valores ilustrativos, construídos para esta série.
TravaValor a reservarData exigidaO que acontece quando é furada
Folha das carteiras assinadas e encargosR$ 37.204,00Data de cada vencimentoMulta, juro e risco trabalhista; a equipe descobre no mesmo dia
Repasse dos profissionaisR$ 130.542,88Conforme cada contratoO profissional leva a agenda e a receita do mês seguinte cai
Impostos sobre a receita do mêsR$ 52.129,13Conforme cada guiaMulta e juro no caixa, e parcelamento que reduz o teto dos meses seguintes
Recomposição da reserva de cicloSem valor nesta sérieAté o fechamento do mêsA próxima janela sem crédito é fechada com crédito bancário

As três travas com valor somam R$ 219.876,01, contra R$ 297.095,40 que entram no mês depois de glosa, inadimplência e taxa de meio de pagamento. Elas sozinhas consomem 74% do dinheiro que entra.

Folha e encargos do dia 5

Esta trava precisa estar coberta pelo saldo de abertura somado às entradas confirmadas dos primeiros dias do mês. Folha que só fecha com o crédito da segunda quinzena já é sinal de ciclo apertado. Isso vale mesmo em mês que fecha positivo.

Repasse dos profissionais e a data em que ele vence

Atrasar repasse é a primeira reação quando o caixa aperta, e custa mais do que as outras três travas. Na clínica desta série o repasse é R$ 130.542,88, a maior saída do mês. O profissional que fica sem receber leva a agenda para outra clínica, e a agenda é a receita do mês seguinte.

A dor depende da composição do pagamento. A parte que acompanha a hora entregue, como o pagamento por sessão, sai junto com a receita. A parte que não acompanha nada, como salário fixo e pacote mensal fechado, permanece integral. Quanto maior essa segunda parte, mais dói cada hora de sala vazia.

Impostos do mês e os que vencem fora do mês

Separe as guias em dois grupos. As que vencem no período entram como saída do passo 2. As que vencem fora dele, como parcelamentos e tributos anuais, entram na provisão do passo 5. Somar os dois grupos num lugar só subtrai duas vezes o mesmo dinheiro ou deixa uma guia descoberta.

Reserva de ciclo: quantos dias de operação o caixa precisa cobrir

A reserva responde a duas perguntas. Quantos dias a clínica opera sem crédito relevante, e quanto custa manter a operação de pé nesses dias. O custo diário da clínica desta série é R$ 8.261,96, e o número de dias sai do seu contrato.

O dimensionamento da necessidade de capital de giro que sustenta esse intervalo está em dinheiro parado no convênio, com o custo de cada dia de prazo. Para entrar no cálculo do teto, esse dinheiro precisa de liquidez diária, sacável em qualquer dia útil sem carência e sem perda. Onde deixá-lo é decisão de investimento, e esta página não trata disso.

Ferramenta gratuita

O quadro de 13 linhas, preenchido

A calculadora de teto de retirada faz este quadro inteiro: você digita as 13 linhas e ela devolve o espaço do mês, o pró-labore que cabe e quanto sobra para distribuição.

Abrir a calculadora

O quadro de teto de retirada, 13 linhas para preencher

As 13 linhas e de onde vem cada dado

Quadro de teto de retirada do mês, com a origem de cada dado e o preenchimento do mês da clínica ilustrativa desta série. Valores ilustrativos, construídos para a série.
LinhaDescriçãoDe onde vem o dadoMês da clínica ilustrativa
1Saldo livre em conta na data do cálculoExtrato das contas de movimento, sem a reservaSem valor nesta série
2Particular creditado no período, líquido de inadimplência e taxaAgenda confirmada e agenda de recebíveis da adquirenteR$ 213.978,60
3Convênio creditado no período, líquido da glosa finalDemonstrativo de cada operadora com dataR$ 83.116,80
4Pacote recebido no períodoContratos de pacote assinados no mêsR$ 0,00
5Repasse com vencimento no períodoProdução por profissional e regra do contratoR$ 130.542,88
6Folha das carteiras assinadas, encargos e benefíciosFolha fechada do mêsR$ 37.204,00
7Impostos sobre a receita com vencimento no períodoGuias emitidas pelo contadorR$ 52.129,13
8Demais custos fixos do período, fora a remuneração do sócioClassificação do extrato, linha a linhaR$ 41.900,00
9Material e laboratório do períodoNotas de insumo e de laboratórioR$ 11.880,00
10Dívida e investimento contratado até o próximo créditoContratos de crédito e pedidos assinadosSem valor nesta série
11Provisão do mês para o que vence uma vez por anoMemória de cálculo do passo 5R$ 4.732,00
12Recomposição da reserva de cicloReserva exigida menos reserva existenteSem valor nesta série
13Serviço de pacote ainda a entregarRecebido de pacote menos sessões já entreguesR$ 0,00
14Espaço do mês para a remuneração do sócioLinhas 1 a 4 menos linhas 5 a 13R$ 18.707,39

As linhas 2 e 3 somam R$ 297.095,40, que é o dinheiro que entra depois de glosa, inadimplência e taxa. As linhas 5 a 13 somam R$ 278.388,01. A diferença entre os dois blocos é a linha 14, R$ 18.707,39, o mesmo número do passo 7 por outro caminho.

A linha 14 ainda não é o teto de retirada. Ela precisa cobrir o pró-labore e a patronal de 20% sobre ele. No mês da série, esses dois custam R$ 21.600,00 e não cabem na linha 14. O teto é o pró-labore de R$ 18.000,00 já pago, e a distribuição é R$ 0,00.

Três linhas do quadro não existem na clínica desta série. Se existissem, elas reduziriam a linha 14 e agravariam o mês. Nenhuma delas pode aumentar o teto.

Como usar o quadro em mês de pacote e em mês de 13º

Em mês de venda forte de pacote, a linha 4 sobe e a linha 13 sobe junto. Só a parte já entregue chega à linha 14. Quem preenche o quadro sem a linha 13 erra o teto para cima em todo mês de venda de pacote.

Em mês de décimo terceiro, a provisão da linha 11 vira saída na linha 6. Com provisão feita nos onze meses anteriores, o dinheiro já está em conta e o teto quase não sente. Sem provisão, o teto de novembro e de dezembro absorve o valor cheio de uma vez, e costuma dar negativo.

O que fazer quando o teto dá negativo

Teto negativo indica que a clínica está financiando a operação com alguma coisa. A ordem abaixo procura a causa antes de mexer no sintoma.

  1. Hora de sala vazia. Na clínica desta série faltam 20,31 horas ocupadas para empatar, com 432 horas de sala abertas e vazias no mês. É a alavanca mais barata, porque o custo fixo dessas horas já foi pago.
  2. Glosa em aberto e recurso no prazo. Levante o glosado dos últimos três ciclos e veja quais recursos ainda cabem no prazo. É a alavanca mais rápida, porque o serviço já foi entregue e o custo já ocorreu.
  3. Base de repasse. Confira se o repasse é calculado sobre o faturado ou sobre o efetivamente recebido. A primeira base paga ao profissional uma receita que a clínica ainda não tem. A comparação entre as duas está em percentual de repasse da clínica.
  4. Preço do canal de menor margem. Apure a margem de contribuição por canal, tirando de cada receita o custo variável e o imposto sobre ela. A decisão de mudar o mix depende também do custo de aquisição do paciente particular, tratado em convênio ou particular.
  5. Custo fixo. Aqui a decisão trata de capacidade: se uma sala, um turno ou uma linha de serviço deve ser aberta ou fechada.
  6. Renegociação de dívida. Alongar prazo alivia o caixa do mês e aumenta o custo total. Vale quando compra tempo para as alavancas anteriores.
  7. Suspender ou reduzir a retirada. Última alavanca e a mais cara, porque deixa a causa de pé. Resolve o mês e devolve o mesmo problema no seguinte.

O custo fixo fica abaixo da linha nessa apuração, sem rateio dentro do procedimento. Dividir custo fixo por número de atendimentos faz o custo unitário subir toda vez que o volume cai. A espiral que isso produz, e a conta que mostra por que a alavanca real costuma ser preencher a capacidade vazia, está em custo da hora da clínica.

Retirada em mês de pacote: o dinheiro que entrou inteiro e o serviço que falta entregar

Pacote de sessões em fisioterapia, psicologia, nutrição e estética

O mês da clínica ilustrativa desta série não teve venda de pacote. A mecânica abaixo usa um recorte construído com o preço particular de fisioterapia dela, R$ 150,00 por sessão. O recorte serve para mostrar a conta, e não altera nenhum número da série.

O paciente paga dez sessões de uma vez. O dinheiro entra inteiro no mês da venda. A obrigação de entregar fica de pé por seis a doze semanas. O custo dessas sessões, que inclui sala, profissional, repasse e insumo, ainda vai ocorrer nessas semanas.

Quanto do pacote ainda é serviço a entregar

Recorte de um pacote de dez sessões de fisioterapia, ao preço particular de R$ 150,00 da clínica ilustrativa desta série, com três sessões entregues até o fechamento. Valores ilustrativos.
LinhaMemória de cálculoValor
Recebido à vista no mês10 sessões a R$ 150,00R$ 1.500,00
Sessões já entregues até o fechamento3 sessões a R$ 150,00R$ 450,00
Sessões a entregar7 sessões a R$ 150,00R$ 1.050,00
Pode entrar no teto do mêsRecebido menos sessões a entregarR$ 450,00
Fica travadoServiço a entregar e devolução possívelR$ 1.050,00

O custo direto das sete sessões restantes tem duas partes. O insumo de fisioterapia da série é R$ 3,00 por atendimento, o que dá R$ 21,00. O repasse contratado da fisioterapia é de 40%, e a base dele, faturado ou recebido, é a regra de cada contrato. Qual base o seu contrato adota está tratado em percentual de repasse da clínica.

Como o pacote muda o teto do mês

Essa é a trava aplicada no passo 4 e lançada na linha 13 do quadro. Os valores travados continuam na conta e continuam disponíveis para pagar a operação. Eles deixam de estar disponíveis para retirada por dois motivos.

O primeiro é o custo direto das sessões restantes, que vai ocorrer com o dinheiro já recebido. O segundo é a devolução do pacote interrompido, no que estiver escrito no contrato. O que o seu contrato prevê, e o que a legislação de consumo impõe sobre ele, é pergunta para o advogado. Para o cálculo do teto o efeito é o mesmo: esse dinheiro pode ter que sair.

Existe ainda um descasamento de ritmo que só aparece no terceiro mês. A receita entra de uma vez, e o repasse é pago por sessão realizada. O mês da venda fica com receita cheia e repasse baixo. Os dois seguintes ficam com repasse cheio e receita zero daqueles pacotes. Quem calcula o teto sem essa trava retira no mês bom o dinheiro que vai faltar depois.

Os 5 sinais de que você vinha retirando acima do teto

Antecipar recebível todos os meses

Antecipar uma vez resolve um descasamento pontual. Antecipar todo mês significa que a retirada está sendo financiada por operação de crédito com taxa. Essa taxa virou custo fixo dentro da linha 8 do quadro. Quanto custa cada dia de prazo antecipado, com as taxas médias por modalidade publicadas pelo Banco Central, está em dinheiro parado no convênio.

Usar limite de conta para fechar a folha

A linha de crédito mais cara costuma ser a mais usada, porque já está contratada e dispensa conversa com o gerente. Trocar conta garantida por capital de giro contratado muda o custo do mesmo dinheiro pelo mesmo prazo. A comparação de taxas entre as modalidades está na mesma página do ciclo do convênio.

O sinal de gestão aqui é a recorrência. Limite usado todo mês, na mesma semana do mês, descreve um descasamento estrutural.

Atrasar o repasse dos profissionais

Este é o sinal mais grave, porque antecipa uma queda de receita. O diagnóstico trata de ciclo: a clínica paga o profissional antes de receber da fonte pagadora, sem reserva para cobrir o intervalo. A correção está no passo 4 do cálculo.

Parcelar imposto de rotina

Parcelar tributo por evento extraordinário é decisão de gestão. Parcelar o tributo de rotina todo trimestre indica caixa comprometido antes de a guia vencer. A parcela de hoje some, e as doze seguintes reduzem o teto de doze meses. A decisão fiscal do parcelamento é do contador.

A conta PJ zerar sempre antes do mesmo dia do mês

Se a conta zera sempre em torno do dia 12, esse dia é o retrato do seu ciclo de caixa. As entradas confirmadas até ali cobrem as saídas até ali, e o resto depende do crédito seguinte. A distância entre esse dia e o próximo crédito relevante, multiplicada pelo custo operacional diário, é o tamanho da sua reserva de ciclo. A conta de quanto sobra depois de tudo que já tem dono está em o que é fluxo de caixa livre.

Onde termina a resposta da BID e começa a do contador

A BID responde quanto cabe sair do caixa e em que data, com base no extrato, no aging de recebível e nas obrigações com vencimento. O contador responde como essa retirada deve ser estruturada do ponto de vista fiscal e societário. As duas respostas são necessárias, e a segunda fica melhor quando a primeira chega pronta.

O que a BID responde: efeito no caixa e no resultado

Quanto entra, com que data, quanto sai, o que fica travado e o que sobra. O método é o da DRE de caixa, construída lançamento a lançamento do extrato, descrito em como elaborar fluxo de caixa pelo método direto.

O que é do contador: enquadramento, Fator R, anexos, equiparação hospitalar e distribuição isenta

Cinco temas ficam do lado do contador, e todos mudam o resultado do seu cálculo. O enquadramento tributário. O Fator R, que define o anexo aplicável no Simples Nacional pela relação entre folha e receita. A equiparação a serviços hospitalares no Lucro Presumido. A exigência de escrituração regular para distribuir acima da base presumida. E a aplicação da retenção de 10% da Lei 15.270/2025.

A equiparação hospitalar está no artigo 15, parágrafo 1º, inciso III, alínea “a”, da Lei 9.249/1995. Ela exige organização como sociedade empresária, desde a Lei 11.727/2008, e atendimento às normas da Anvisa. O alcance da expressão foi definido pelo Superior Tribunal de Justiça no recurso repetitivo REsp 1.116.399, Tema 217, cuja tese exclui as simples consultas médicas. Quando reconhecida, a equiparação altera as bases de presunção de IRPJ e CSLL. O contador dimensiona em reais o que isso muda no mês.

As 6 perguntas para levar ao contador com o quadro já preenchido

Roteiro de seis perguntas para a reunião com o contador, com a linha do quadro que sustenta cada uma.
PerguntaLinha do quadro que sustenta
Dado o espaço de R$ 18.707,39 deste mês, qual pró-labore minimiza o custo total? A contribuição patronal sobre ele está dentro da nossa guia única?Linha 14 e a tabela das duas colunas do passo 7
A clínica se enquadra no Fator R hoje? Qual pró-labore mudaria o anexo, e quanto isso custa ou economiza por mês?Linhas 2 a 6
A clínica atende aos requisitos de equiparação a serviços hospitalares no Lucro Presumido? Se atende, qual passa a ser a alíquota efetiva, comparada com os 16,88% de hoje?Linhas 2, 3 e 7
Existe exigência de escrituração contábil regular para distribuir acima da base presumida no nosso caso? Ela está sendo cumprida?Linha 14
Qual período de apuração sustenta a distribuição que fazemos: mensal, trimestral ou anual? Um mês negativo suspende a distribuição do trimestre inteiro?Linha 14
O que precisa constar em contrato social ou em ata para formalizar esta distribuição, sobretudo quando ela é desproporcional à participação?Linha 14

Perguntas frequentes

Existe um percentual do faturamento que dá para retirar com segurança?

A clínica ilustrativa desta série fatura R$ 308.780,00 e tem teto de R$ 18.000,00, com distribuição zero. Isso é 5,83% do faturamento, e esse percentual não serve para nenhuma outra clínica.

Duas clínicas com o mesmo faturamento têm tetos muito diferentes. A que fatura quase tudo em particular à vista, sem recebível longo, tem teto alto e estável. A que fatura a maior parte em convênio, com prazo longo e glosa recorrente, tem teto baixo, porque precisa manter reserva para os dias sem crédito. O percentual único ignora exatamente o que separa as duas. A decisão de mudar o mix é outra conta, feita em convênio ou particular.

Posso retirar tudo que sobrou no mês?

O saldo do fim do mês contém dinheiro que já tem dono. Ele inclui a folha, o repasse e as guias com vencimento. Inclui também a provisão de décimo terceiro, a reserva até o próximo crédito e as sessões de pacote que ainda vão ser entregues. O saldo em conta é a linha 1 do quadro. O espaço para a retirada é a linha 14.

Quanto ganha o dono de uma clínica média?

Não localizei pesquisa de órgão público ou de entidade de classe que publique retirada de sócio de clínica no Brasil, com metodologia declarada e amostra conhecida. Os valores que circulam vêm de agregadores de vagas de emprego, que estimam salário de posição contratada a partir de anúncios e de declarações de usuários. Sócio não tem vaga anunciada e não declara retirada nessas bases. Usar esse número troca um cálculo que você pode fazer por uma estatística que mede outra coisa.

Sou sócio de 50% e o outro sócio atende mais. Como dividir?

São duas decisões independentes, e misturá-las cria conflito todo mês. A remuneração por produção paga o trabalho clínico de cada sócio, pela mesma regra aplicada aos demais profissionais. Ela entra na linha 5 do quadro, como custo, antes da linha 14.

A divisão de lucro remunera o capital, segue a participação societária ou o que estiver formalizado, e entra depois da linha 14. Quando o sócio que atende mais recebe só pela participação, ele financia a clínica com o próprio trabalho sem que ninguém tenha decidido isso.

Recebo de convênio em 60 dias. Dá para retirar sobre o que ainda não caiu?

O valor entra na linha 3 quando existe data de crédito confirmada no demonstrativo. Produção enviada sem demonstrativo conferido fica fora, e produção glosada com recurso aberto também. Retirar sobre recebível não creditado exige antecipar o recebível, com a taxa da modalidade contratada. Nesse caso o custo do crédito entra como saída, e a retirada fica menor.

O contador disse que posso distribuir. Por que o caixa não deixa?

As duas informações respondem perguntas diferentes e podem estar certas ao mesmo tempo. O contador apurou lucro em competência, que reconhece a receita quando o serviço foi prestado. O caixa registra o dinheiro quando ele entra no banco.

Entre os dois momentos está o ciclo do recebível, com cerca de 58 dias entre o atendimento e o crédito. O lucro pode existir e ainda estar dentro da operadora. A distribuição pode ser deliberada, e o pagamento dela respeita a linha 14.

O que muda quando esse quadro é fechado todo mês

A rotina mensal que sustenta o teto

Rotina mensal de seis tarefas que mantém o quadro de teto atualizado, com a data sugerida no mês.
TarefaQuandoEntregável
Fechar o lote de cada operadora na data de corteData de corte de cada contratoRemessa enviada com anexos completos
Conferir o demonstrativo contra o enviado e abrir recurso de glosaAté 3 dias após o demonstrativoRecursos protocolados dentro do prazo
Atualizar o aging de recebível por operadora e dataToda sexta-feiraPlanilha de cinco colunas atualizada
Fechar a DRE de caixa do mês anteriorAté o dia 5Conciliação fechada contra o saldo do extrato
Recalcular o teto de retirada do mês correnteAté o dia 7Quadro de 13 linhas preenchido
Programar a retirada e a divisão entre pró-labore e distribuiçãoAté o dia 10Valor e data definidos antes do pagamento

O mesmo mês em três níveis de ocupação

O que decide a existência de distribuição na clínica desta série é quanta hora de sala aberta tem atendimento dentro. A tabela repete o mesmo mês em três níveis, mantendo tudo o mais igual. O custo fixo é o mesmo nos três, com o pró-labore de R$ 18.000,00 e a patronal de R$ 3.600,00 dentro dele.

O mesmo mês da clínica ilustrativa desta série em três níveis de ocupação, sobre as 1.152 horas de sala abertas, com o custo fixo mantido em R$ 105.436,00. Valores ilustrativos, construídos para a série.
Horas ocupadas no mêsOcupaçãoResultado do mêsDistribuição de lucro possível
720,00, o mês da série62,50%R$ 2.892,61 negativosR$ 0,00
740,31, o ponto de equilíbrio64,26%R$ 0,00R$ 0,00
866,7075,23%R$ 18.000,46R$ 18.000,46, limitada ao que estiver em conta

A terceira linha é derivada das duas primeiras. Ela soma 126,39 horas ocupadas ao ponto de equilíbrio, a R$ 142,42 de margem por hora ocupada do mix atual. É o ponto em que a distribuição do mês iguala o pró-labore pago.

A distância entre a primeira e a segunda linha é de 20,31 horas, ou 51 minutos por dia útil somando as quatro salas. A distância entre a primeira e a terceira é de 146,70 horas. Nas duas, o custo fixo já está pago e as salas já estão abertas.

O segundo número que sai do mesmo preenchimento é a data mais apertada do mês. Projete saldo de abertura, entradas e saídas dia a dia e marque o dia de menor saldo. Se o saldo projetado nesse dia é menor que a folha, a retirada precisa ser programada para depois dele.

O que o Raio-X de 30 dias entrega

Se você preencheu o quadro e travou em três ou mais linhas por falta de dado, o problema está na base. O Raio-X de 30 dias da BID é o diagnóstico que produz essa base, e ele entrega quatro conjuntos de peças.

Um. O diagnóstico, que é a DRE de caixa dos últimos doze meses, classificada lançamento a lançamento do extrato e por beneficiário, com casamento por CPF e por CNPJ. Junto com ela vêm o custo por hora de sala aberta, por sala e por modalidade, com o denominador de horas e a unidade de cada modalidade declarados. Vêm também o mapa de ocupação com o mesmo denominador declarado e a relação de pendências de classificação para confirmar com você. Atendimento simultâneo e atendimento um a um não se comparam pela mesma unidade, e o motivo está em custo da hora da clínica.

Dois. Os controles e indicadores. São o plano de ação priorizado em reais e o painel definido junto com a clínica. Junto vem a rotina de fechamento mensal documentada, com quem faz o quê e em que dia do mês.

Três. O acompanhamento, com a DRE de caixa atualizada todo mês e o efeito de cada frente medido dentro do resultado.

Quatro. O apoio na implementação, até o fechamento virar rotina da equipe da clínica.

Três coisas ficam fora, e é melhor saber antes. A BID não faz a contabilidade da clínica e não substitui o contador nas decisões de enquadramento, anexo e escrituração. A BID não dá parecer jurídico, e contrato de pacote, contrato com operadora e rescisão vão para o advogado. E a BID não recomenda onde aplicar a reserva de ciclo, porque isso é aconselhamento de investimento.

O que o Raio-X faz é entregar o quadro de treze linhas preenchido com os seus números, com as perguntas do bloco anterior prontas para a reunião.

Depois do Raio-X, o BPO financeiro para médicos mantém o quadro vivo. A DRE de caixa é atualizada todo mês e o aging é conferido contra os demonstrativos. O painel é definido junto com a clínica, e o acompanhamento segue até o fechamento virar rotina da equipe.

Cliente – Calculadora – Final

Compartilhe este conteúdo

Conteúdos

Aprenda mais sobre gestão empresarial

Navegue por categorias

Uma Pessoa Sentada Em Uma Mesa Com Um Laptop OUbzU87d1Gc

Quando usar o planejamento financeiro?

Descubra quando usar o planejamento financeiro para sair do improviso, ganhar previsibilidade e crescer com segurança na sua empresa.

Publicação
Hands carefully holding a stack of US dollar bills, representing finance and currency.

Como garantir um fluxo de caixa estável

Aprenda como garantir um fluxo de caixa estável, organize recebimentos e pagamentos e tome decisões financeiras com mais segurança e previsibilidade.

Publicação
A person using a calculator and cash to plan a household budget.

Qual a importância do planejamento financeiro pessoal e profissional

Descubra qual a importância do planejamento financeiro pessoal e profissional e como ele garante controle, previsibilidade e crescimento sustentável.

Publicação
Top view of electronic calculator and notepad placed over United States dollar cash money together with metallic pen for budget planning and calculation

Como aprender fluxo de caixa

Descubra como aprender fluxo de caixa de forma prática, tome decisões com dados reais e garanta a saúde financeira do seu negócio.

Publicação
A 2025 desk calendar with coffee, sticky notes, and succulents for planning.

Como montar planejamento financeiro

Aprenda como montar planejamento financeiro e transforme números em estratégia, evitando crises e crescendo com previsibilidade e sustentabilidade.

Publicação
Pessoa Na Jaqueta Do Terno Preto Segurando O Computador Tablet Branco NApaSgkzaxg

Como administrar o fluxo de caixa das empresas pdf

Aprenda como administrar o fluxo de caixa das empresas pdf e aplique ferramentas práticas para organizar entradas, saídas e garantir saúde financeira.

Publicação